Você não escolhe quem você ama.
Quando vê, está amando com cada pedacinho do seu corpo uma certa pessoa.
Daí entra a sorte.
Sorte sim, porque as variáveis podem ser infinitas: a pessoa pode te amar de volta, pode não sentir nada por você, pode ter outra pessoa, pode nem te conhecer. Sei lá, mil coisas.
Mas esse amor que você sente te modifica e desperta coisas dentro de você, sentimentos e sensações boas e más. E de acordo com as sensações que esse amor desperta dentro de você você pode desenvolver outro sentimento pelo objeto de amor também: o ódio.
Se as sensações de amar alguém que aparecem para você de alguma forma também são desagradáveis, suscitam coisas ruins dentro de você, nada mais natural que desenvolver sentimentos contrários de raiva, ódio e mágoa pelo objeto de amor.
Ao amar alguém, de repente você se percebe uma pessoa pior do que você se imaginava. Sua auto-imagem vai para um lugar ruim que você não esperava e não queria ver. Você também pode constatar coisas que não queria constatar a seu respeito ao se comparar com o outro, o objeto do amor.
Então, você fica numa situação que todo mundo costuma achar muito desconfortável: amando e odiando ao mesmo tempo, com “opostos” dentro de si. E é difícil lidar com os “opostos” num mesmo espaço.
Eu coloco “opostos” entre aspas porque eu acredito que o oposto de amor é a indiferença. Tanto o amor como o ódio são sentimentos extremamente carregados de emoção. E o oposto de algo carregado de emoção é a ausência de emoção. Assim, para mim, uma pessoa pode sentir pela outra uma carga de emoções que englobam amor/ódio ou pode não sentir.
Mas como lidar com esses sentimentos ruins dentro de nós? Todo esse ódio?
Bem, o primeiro passo é reconhecer que se sente algo. Existe uma carga emocional. Ao reconhecer as emoções podemos começar a lidar com elas e não ficar a mercê delas.
Tem gente que projeta para fora esses sentimentos ruins no objeto de amor.
E quanto sofrimento desnecessário vemos por aí por causa disso. Pessoas fazendo outros sofrerem porque não lidam internamente com suas próprias dificuldades.
E como lidar com essas dificuldades? É mais simples do que parece.
Tudo se resume num processo de aceitação de si mesmo. O que o outro nos mostrou sobre nós que nos trouxe o incômodo dos sentimentos ruins é o que deve ser aceito e incorporado a nossa personalidade. Traduzindo: “aquela pessoa que eu amo me mostrou um lado meu do qual eu não gosto nem me orgulho, mas eu me aceito desse jeito, me amo assim mesmo.”
Ao aceitar nossas facetas das quais não gostamos, podemos ter acesso a elas e modificá-las. E daí, sim, nos tornarmos a pessoa que achávamos que éramos mas que nosso objeto de amor nos mostrou que não somos.
Privilegiados aqueles que podem ter esse feedback e ser mais felizes.